18 de maio de 2019

Sobre guarda-chuvas e outras memórias.

Eu quis me colocar ao seu lado,
por mais que fosse sempre em
forma de amparo.

É mirabolante pretender um novo céu
e mais ainda pensar em realiza-lo.

Estar por dentro também é estar ao lado?

Não sei prever. Não sei distinguir dias nublados dos que haverão, de fato, tempestade, mas me arriscaria dividir um guarda-chuva com você em qualquer clima.

Ameno.

Digo não ser precaução mas já é um cuidado. O mundo tem sempre um peso imenso que de quando em quando se aproxima mais dos ombros, de quando em quando se aproxima quando estamos na corda bamba de dias assim.

É de se esperar a queda e a quebra.
Não esperançar.
Mas debaixo do guarda-chuva seus olhos incendeiam mesmo tendo cor de rio.
Não se atreva a permitir que chova apenas pra você. Segure-se um pouco mais.
E, se eu estiver de pé, segure-se também em mim.

Sempre existe mais de um mundo por cair.

Mas, se fizer diferença,
alguns já caíram antes, por vezes.
Mas, se fizer diferença,
tem sempre alguém por você.

Mas, se fizer diferença,
eu estou por você. 

De guarda-chuva.

10 de abril de 2017

Findociclo



Não sei em qual categoria de clichê eu faria a inserção da ideia que a vida é um incessante abrir e fechar de ciclo, mas como nunca vi problema em corroborar com o senso comum, insira onde soar melhor.

Hoje meu mundo encerra uma volta de três anos.
O que é irrelevante para o movimento de translação da terra é um novo início de tudo pra mim.

Das coisas que levo algumas gravei na pele, outras finjo que esqueci.
Começo a experimentar a nostalgia de uma memória fresca de um passado que eu ainda transpiro. Reconstituo o gosto de cada segunda amarga e sexta de glória, de cada raiva engolida e das diversas frações em que eu fui feliz imensamente e agradeço.



Cheguei barco de papel e saio canoa de madeira.
Talvez não seja a melhor analogia pras coisas que eu aprendi, mas agora é a que faz mais sentido.
A cada pessoa que me acompanhou ou passou pelo meu caminho, cada lugar que eu estive e tudo que eu escrevi, bebi e amei, vira um pacote só que agora vai guardado no meu barco de fé enquanto eu remo num novo mar de incertezas.

Todo ciclo tem um fim, todo fim é um começo.

13 de julho de 2016

Colete.

Meus dias tem queimado feito cigarro nessa religiosa rotina,
acordo, trampo, penso umas bobagens, volto pra casa lendo
frases clichês em lixeiras de auto-ajuda.
É, no sentido literal, meu bem, rabiscam umas palavras porcarias
no meio da paisagem desbotada, tudo de péssimo gosto. Você ia adorar.

Não me leve a mal, mas entre trocadilhos rasos e minhas rimas duvidosas, eu sei bem que você ficaria com as lixeiras. 
Não tem nada de errado nisso, tenho muitos outros mal dizeres pra te
irritar ao invés de explanar seu péssimo gosto.

Péssimo gosto que me inclui, vai ano, vem ano e eu continuo um fodido.
O mesmo que te convenceu na noite que nos conhecemos que dipirona faz mal pra saúde que pombos viajam no tempo.
Você riu e segurou as pontas do colete cinza que estava por cima da blusa.

Às vezes penso se você ainda usa aquilo. Meu Deus, como eu odeio aquele colete. Você insistia que ele lhe conferia um ar sisudo. No fundo, eu sei que era só um eufemismo pra dizer que era um ar de superioridade.
Essa sua vontade inconsciente de parecer melhor que eu nunca me incomodou, só de existir do meu lado você já era melhor que eu. 
Mas eu odiava tanto aquele colete que a alegria de te despir quando chegávamos tropeçando e você cravava as unhas em minhas costas era dobrada. Sabe, meu bem, sinto falta pra caralho da sua respiração ofegante perto do meu ouvido.

Era gostoso, sabe?
Rolar no tapete com você feito adolescente e esquecer todas as merdas que a gente tava passando. 
Me sentia tão leve que esperava a qualquer momento sair flutuando pelo apartamento frio. Não me tome por piegas, eu sei que pra você era assim também. 
Era gostoso quando a única coisa que eu odiava em você era aquele colete.

Ontem queimei suas cartas e a última parte de mim que ainda acreditava em alguma coisa.
Fiquei sentado olhando os papeis incendiarem dentro do meu quarto enquanto minha bochecha se avermelhava pelo calor. Queria que a fumaça fosse capaz de carregar cada vestígio seu que ainda existisse por ali, mas, cá entre nós, não iria adiantar porra nenhuma te exorcizar da minha casa se toda vez que eu fecho os olhos você vem me atormentar.

Chega a ser cômica minha vontade de te escrever depois de tudo. 
Entre o amor e o rancor a linha é tênue, meu bem.
Quando acordei, ainda com o cheiro de queimado impregnando e pesando o ar, tudo que eu desejei era te perguntar:

"mas e aí, sua semana também tem sido estranha?"

Puxei o cobertor e voltei a dormir.

8 de outubro de 2015

bloco de notas de quinta

Chamou, chamou e ninguém atendeu.


Podia ser música sertaneja, 

talvez seja, 
talvez vire, 
toda tristeza deveria ser música.
Continua triste, mas é bonito de ouvir. 

Me lembra uma tirinha que outro dia eu li, 

uma mocinha de cabelos pretos escutava 
a um disco enquanto um rapazinho se afundava chateado na cadeira,
talvez fossem a Lucy e o Charlie Brown
(ou talvez eu quisesse que fossem).


O rapazinho dizia triste:

- Essa música sempre me deprime, traz memórias realmente ruins, sabe?
Eu nunca escutei uma música que me deprimisse tanto como essa.
Sentava-se na frente da mocinha com o toca discos e dizia muito sério
"você pode toca-la outra vez?"

Alguns dias são assim.
Ensolarados ou nublados você está triste e triste continua.

Sabe que conseguiria lembrar dos dias com festa na rua,
em que seu riso frouxo desprendia na avenida larga
e o mundo parecia menos amargo,

mas prefere repetir a música e continuar triste.

Não tem problema, a vida às vezes é bem sem graça,
tudo bem se a gente quiser ficar sem graça de volta.

O mundo não vai acabar hoje já que não acabou ontem
(a gente já sabia), 
da tempo de ficar feliz outro dia.

Respira e não desfaleça:

Vem das tristezas as maiores belezas.

Pega o telefone e disca outra vez.