Meus dias tem queimado feito cigarro nessa religiosa rotina,
acordo, trampo, penso umas bobagens, volto pra casa lendo
frases clichês em lixeiras de auto-ajuda.
É, no sentido literal, meu bem, rabiscam umas palavras porcarias
no meio da paisagem desbotada, tudo de péssimo gosto. Você ia adorar.
Não me leve a mal, mas entre trocadilhos rasos e minhas rimas duvidosas, eu sei bem que você ficaria com as lixeiras.
Não tem nada de errado nisso, tenho muitos outros mal dizeres pra te
irritar ao invés de explanar seu péssimo gosto.
Péssimo gosto que me inclui, vai ano, vem ano e eu continuo um fodido.
O mesmo que te convenceu na noite que nos conhecemos que dipirona faz mal pra saúde que pombos viajam no tempo.
Você riu e segurou as pontas do colete cinza que estava por cima da blusa.
Às vezes penso se você ainda usa aquilo. Meu Deus, como eu odeio aquele colete. Você insistia que ele lhe conferia um ar sisudo. No fundo, eu sei que era só um eufemismo pra dizer que era um ar de superioridade.
Essa sua vontade inconsciente de parecer melhor que eu nunca me incomodou, só de existir do meu lado você já era melhor que eu.
Mas eu odiava tanto aquele colete que a alegria de te despir quando chegávamos tropeçando e você cravava as unhas em minhas costas era dobrada. Sabe, meu bem, sinto falta pra caralho da sua respiração ofegante perto do meu ouvido.
Era gostoso, sabe?
Rolar no tapete com você feito adolescente e esquecer todas as merdas que a gente tava passando. Me sentia tão leve que esperava a qualquer momento sair flutuando pelo apartamento frio. Não me tome por piegas, eu sei que pra você era assim também.
Era gostoso quando a única coisa que eu odiava em você era aquele colete.
Ontem queimei suas cartas e a última parte de mim que ainda acreditava em alguma coisa.
Fiquei sentado olhando os papeis incendiarem dentro do meu quarto enquanto minha bochecha se avermelhava pelo calor. Queria que a fumaça fosse capaz de carregar cada vestígio seu que ainda existisse por ali, mas, cá entre nós, não iria adiantar porra nenhuma te exorcizar da minha casa se toda vez que eu fecho os olhos você vem me atormentar.
Chega a ser cômica minha vontade de te escrever depois de tudo.
Entre o amor e o rancor a linha é tênue, meu bem.
Quando acordei, ainda com o cheiro de queimado impregnando e pesando o ar, tudo que eu desejei era te perguntar:
"mas e aí, sua semana também tem sido estranha?"
Puxei o cobertor e voltei a dormir.
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